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não há dor maior que caiba em nós
nós de engrenagens
nós sem datas
e toda dor do mundo
em vós cansadas
dos trovões e das estradas.
tenho o riso cansado da alegria
Elaine Pauvolid 10:35 PM
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Deus multidão deus
Elaine Pauvolid 6:20 PM
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Não tenho a sorte dos amores tranquilos
nem as verdades
carrego inconstância na forma
e uma vontade insaciável
nao sei se acaba este fôlego
nem se morro em fogo morno
mas por enquanto preciso dizer
senão eu morro
Deus é uma vontade de gritar!
a identidade...
a identidade...
a identidade...
onde ela está eu sou
e quando ela some
para onde eu vou?
talvez me agarre ao pescoço de um amante
ou de um amigo
ou do meu analista
gritando: socorro
mas enquanto ela está
que delicia ser gente...
dizem que a pos modernidade
que a contemporaneidade
que a vanguarda
que sabem vocês disso?
pelo amor de deus
eu nao quero fazer comicio
nem escrever lápides
eu quero é sobreviver
dai-me pão porque tenho fome
dai-me água porque tenho cedo
vinde a mim as criancinhas
os pobres de espírito
os miserárveis
vinde a mim que vou a vós
e os santos todos nos protejam
Gosto de homens meninos
homens que trazem o brilho nos olhos
nada de olhos nublados
cansados
gosto de homens que ainda nao deixaram de sonhar
gosto dos homens meninos
que nunca envelhecem
porque nunca desistem
e são sempre enfants terribles
sendo expulsos de sala injustamente
chorando calados em corredores compridos
sentindo falta de alguma coisa que ficou para trás
que ele perdeu
e que busca encontrar
gosto desses homens
e acho que alguns deles também gostam de mim
a menina que vê de longe
e quando vista, se esconde
o mundo não cega,
cata.
É possível viver na doença e no caos
Se escutamos o silêncio atrás
Do som verde da alma
Onde está Deus quando dói a alma?
vós que crês dizei-me!
...
sim, eu sei...
e por que isso ainda não me é o bastante?
...
sim, eu sei...
...
sim, acho que creio.
Porque quando a solidão vem forte
um deserto se abre
e é preciso atravessá-lo
logo que nasci era muito só
na verdade nao tão só
tinha a imagem de minha mãe
e de meu pai que chegava de viagem
e era uma alegria quando ele chegava
minha mãe era a calma, a paz e o silêncio
meu pai a gargalhada, a bola
e a alegria de minha mãe.
Meu pai era o grande Deus na terra
pela boca de minha mãe:
"tem papai do céu, que é o pai no céu.
Temos dois pais:
um na terra e um no céu.
O seu pai na Terra é o papai,
o seu pai no céu é o papai do céu"
Meu pai então era o Deus na terra
talvez
e dói ficar sem Deus
um dia ele foi embora e nunca mais voltou
o Deus do céu está ainda
mas meu pai na terra pode nao ser um deus
mas é meu pai
um pai que tem orgulho de ser meu pai
meu pai apenas
um homem que me protegeu dos outros homens
um homem que me disse para ser grande
um homem que se não é um deus, é um homem.
Elaine Pauvolid 8:04 PM
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Só ladro quando eu morro
Não me resta mais nada
nem a dor
nem o remorso,
nada.
Também nao presto atenção em que se passa.
Tenho um corpo,
uma voz,
uma ameaça.
Fora isso, calma e paz,
vento correndo na calçada,
cachorro olhando o nada,
a poeira, na minha calça
mais nada.
Nao me importa que sinto mais que o mundo,
nem que o mundo se situe sob os meus pés,
não me importa que um dia eu morra,
que não sinta mais o mundo nem os pés,
não me importam os homens,
as mulheres,
não me importam os parentes
nem as conveniências.
Me importam os amigos,
os meus cachorros,
o silêncio e o vento seco.
Não me importam as trovoadas,
os maremotos,
os desastres ecológicos,
os escândalos políticos,
as surtadas dos amigos,
as escolhas de meus amantes.
Não me importam as notícias fraticidas
nem os desgastes entre nós.
Não me importam as malditas horas
nem os prazeres da carne,
mas não me importunam nem um pouco as luzes de natal.
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Não tenho mais o morno no peito
a certeza da existência
não tenho
e preciso ter de novo
mesmo sabendo que está perdido
e sei?
porque era tão natural ser
era tão natural os pés na terra
a chuva, o sol
tudo fazia sentido e acabava bem no final
hoje o peito é gelado
parece mesmo que tem um espinho cravado
e dói nas horas mais impróprias
rasgando minha memória
a memória dos velhos tempos.
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Que tempo foi aquele em que eu existia
tinha um nome e sabia a pronúncia correta dele?
Sabia também que nem todo mundo sabia
e falava abrasileirado o Pô do Pauvolid.
Que tempo foi aquele em que sabia dos limites,
que tempo foi aquele em que fui tão velha e sábia?
hoje, caminhando para morte
tudo vai se desfazendo.
meu nome não é mais meu nome
os limites me convidam para um precipício
muita coisa não acaba bem
e eu sei cada vez daquele tempo
na ingênua certeza de reencontrá-lo.
___________________________________
Uma dor de cimento constrange minha história
quem é a menina que brinca no chão da sala
e tem certeza do futuro
sendo a vida um flecha bastando seguir o rumo?
Esta menina está mesmo morta?
Sim, a vê no chão da sala?
Vê seus brinquedos?
Eu a vejo na memória muito claramente
e hoje sou o final da flecha.
O que me separa dela foi apenas o processo,
toda a vida que passou e que passa
só tem um motivo
eu no fim olhar para ela
e nós duas nos reconhecermos.
Isso já aconteceu e volta o tempo todo
porque ainda estou viva
e ela, apesar de morta, se repete eternamente
para que a ponta da flecha só não se alcance com a morte da memória.
Elaine Pauvolid 11:01 AM
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Nao tenho dons do presente, nem do passado
sei apenas o futuro esperado
e parada perto do meio fio
nao noto rua nem murada
noto tédio pouca estrada
uma voz entrecortada
uma espécie de ser que não pôde
um processo interrompido
e vejo que assim
nao sou mais o que escrevo
nem vejo, somos todos.
Elaine Pauvolid 9:05 PM
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Um poema que o poeta Rodrigo de Souza Leão (1964-2009) fez para mim.
Elaine não era Elaine era muito mais que Elaine
Era uma avenida inteira
Algo entre o perfume e o prisma
Que me escuta em silêncio enquanto ouve a minha cisma
Elaine era mais que Elaine era uma furadeira
Contruia prédios poéticos com suas estruturas
Sabia voar com as próprias asas na altura
E conduzir o condor a um vôo seguro
Era era mais que Elaine era um muro
Um horizonte quase infindável de urros
E assim quando Elaine é mais Elaine é quando grita
Dizendo ao silêncio que é infinita
ponto final
Rodrigo de Souza Leão
2008
quando minha morte chegar não sei o que vou dizer a ela
talvez diga apenas que esperava ansiosa ou que não deveria se a hora
que bem agora havia encontrado um modo bom de viver
ela balançaria a cabeça, certa de que todos dizem isso
me puxaria pelo braço, com suas mãos descarnadas
aquilo me causaria horror
u talvez uma espécie de receio infantil
será que é ela mesma ou alguém se passando por ela
o certo é que , feliz ou não, me deixaria levar
afinal, a vida eu já teria conhecido o bastante
a morte, não
A voz de Deus em mim
Não tenho como expressar em palavras Deus em mim
mas talvez o avesso da solidão
seja Deus
o fim
o começo
Não , não tem nada de careta nem hipócrita
Deus é mesmo o indizível
talvez só o silêncio grite seu nome
sua risada se escuta também no silêncio
e no ruído deus está também
no corpo sujo, caído no chão
no sangue coagulado
no cheiro de esperma
no drogado
deus está mesmo por todo lado
como deus esteve tanto tempo tão calado?
_____________________
Deus é uma vontade de gritar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Meu Deus não está amarrado
nem morto
nem crucificado
Deus está por todo lado
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Elaine Pauvolid 6:52 PM
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Ao poeta Rodrigo de Souza Leão (in memorian)
De repente eu descobri Deus
e O achei tão simples.
Elaine Pauvolid 6:45 PM
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Irmãos
Tenho saudades
da espontaneidade daquela partilha
sempre ter alguém ao lado
obrigatoriamente, irmãos.
E ter a sorte de ter nascido
num gostar de estar junto
num brigar por tudo
em fazer de desgostar por puro gosto
e de lutar pelo amor dos pais
para esfregár na cara seu estado monárquico
sem ter dó do pobre irmão rejeitado
e vê-lo compreender tudo num átimo
e estourar sobre mim
num arroubo de raiva
e estar os dois apartados
um de cada lado: iguais de novo
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A réstia
A réstia do tempo
No vácuo atento
Ao intervalo do lance de dados
Na sala calma, vazia
Os quadros.
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Quando morro tenho vontade de voar...
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É um sentimento profundamente reconfortante estar só
Encontrar-se com a angústia
Como o coração e a alma gelados
Repouso
O pouso das asas
O coçar das penas do peito
Não poder falar
E mesmo assim não estar morta
_______________________
o verdadeiro mendigo é aquele que pede onde não tem
quer o pedinte ser
negado o pedido
falta-lhe ainda mais
não quer
não quer
quer o não ter
o pedir somente
quer sentir-se miserável
e que paz!
Elaine Pauvolid 11:35 PM
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Situação
Eu trabalho
Tu trabalhas
Ele trabalha
Nós trabalhamos
Vós trabalhais
Eles, não!
Elaine Pauvolid
Elaine Pauvolid 4:32 PM
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Acho que vou sentir muita falta do cavalinho amarelo... nesta minha viagem... Por que vc não vem, cavalinho?? deixe-me sem terra... deixe-me apenas mar, e não volta... não me enraize ainda... talvez nem vá atrás da coruja... quem sabe é o sol que eu procuro...
(cavalinho nada diz, deixa jokasta se afastar, deita sobre as patas, apoiando a cara cumprida nas dianteiras, certo de que está em seu lugar e Jokasta no dela)
Elaine Pauvolid 2:42 PM
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Elaine Pauvolid 2:09 PM
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horas vagas preciosas
que não deixam nossas almas preguiçosas...
(jokasta entra cantando num barco enorme de velas ao contrário)
horas vagas preciosas
que não deixam nossas almas preguiçosas...
Eu agora tenho um barco. Sim, um barco. Ele tem uma vela horizontal. não segura os ventos. ela serve apenas contra a chuva. e no meu barco há uma foice. Será meu barco um barco de morte? Eu não me importo que seja um barco de morte. Morte ou vida, os dois lados da mesma lida. Não em importo em morrer porque nunca existi. sou apenas um reflexo. Uma marca, uma sombra... talvez momentânea, talvez diuturna. diuturna parece tanto com diurna. a minha baleia, a que carrega o meu barco, tanto é diuturna quanto diurna. a língua tem tantos universos... nunca diz a mesma coisa ou a unica coisa... a língua nunca diz tudo. é uma pista a língua.
Minha baleia me leva onde ela quer. E parece que por cima sou eu quem levo... ora, ora, como poderia levar um barco cuja vela insufla para cima?
_ Jokasta, Jokasta...
_ E para onde vai encima de sua baleia?
_ Cavalinho, venha também... Suba no meu barco...
_ Eu não posso. Eu não sou aquático...
_ Muito menos eu...
_ Eu preciso ficar em terra, Jokasta... eu preciso estar aqui por você.
_ Então eu vou, cavalinho... vou procurar a coruja... preciso muito dela...
_deixa-a em paz... não vai ser no mar, andando durante os dias cinzentos que há de encontrar o pio típico da coruja azulada...
_ vou para outras terras...
_ para que segue as corujas?
_ eu preciso ter o que seguir... e são tão lindas...
_ Não vá, Jokasta. Não vá! É vão!
_ É vão, eu vou.
Elaine Pauvolid 1:31 AM
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Não sei que parte do mundo vi primeiro,nem qual vestígio que se fez real. Estou incrustrada de ostras. Farol do meu próprio caminho e também o navio, cujo instinto reto é seguir. Atrás de mim, um diptico. Abaixo , minha verdade, a baleia diuturna.
Elaine Pauvolid 12:21 PM
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E você ainda me pergunta por que tenho 13 anos e vivo numa ilha...
A coruja
Para Anderson Fonseca
Não se despregue sobre os montes
nem tenha dó de não ser.
Aprenda com a coruja,
que vive no teto de sua casa,
de sua caverna sem lhe pedir perdão.
Ela enterra seus ovos no chão.
Os ossos são como ovos ao contrário
os ossos não quebrarão facilmente...
A coruja não está te olhando, não.
Nasceu com aqueles olhos
sabe-se lá por que motivo interligado aos bichos.
a coruja habita minha casa
a coruja me avisa
a coruja me desfaz das asas.
Elaine Pauvolid 3:07 AM
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É preciso retomar.
Não, não é preciso.
Talvez nada seja tão preciso quanto a escolha.
É precioso retomar.
No meu caso específico, escolho o retorno
Em busca de raízes que me prendam cá
isso é óbvio
mas preciso dizer
sim, ainda digo de mim
ainda estou aqui.
E a coruja apareceu mais uma vez. Começo a entender sua presença, e por isso mesmo me desentendo.
É azulada a minha coruja. A minha coruja que não é minha. E pia. O pio típico da coruja azulada.
Nada pode ser mais ela do que um pincel sobre a tela.
Ela, ela, ou o pio típico da coruja azulada.
Pois ela me trouxe o dragão ou, antes dela, o dragão? Que é o tempo senão a escolha?
A escolha de que vem primeiro, a copa ou a raiz.
Porque as árvores são figuras importantíssimas desta história.
Porque as árvores nunca serão mudas.
Elaine Pauvolid 8:40 PM