Confidências de Jokasta by Elaine Pauvolid is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at Elaine Pauvolid.

Jokasta, vou colocar um poema aqui de Astrid Cabral, A sombra, que me fez lembrar de você.



A sombra

De manhã levanta-se com minha preguiça,
deita-se à noite com o meu cansaço.
Dói na minha dor, freme no meu orgasmo.
Faz do meu corpo casa mal-assombrada.
De qualquer sol ou luz liberta,
é capaz de vingar no regaço da treva
e zombar de quem quiser guerreá-la.
Cega e surda me ronda e me fareja
sem a meus pés deitar-se em alfombra
nem feito cão lamber-me os rastros.
É uma sombra que sempre me aprisiona
não em transporte e frouxa redoma,
antes em incômoda estreita roupa
que rente e rasante me reveste
tronco, membros e órgãos sob a pele.
É uma sombra que sob a superfície jaz
invisível aos lados, à frente, atrás.
É uma sombra contida no meu espaço
escondida do aço dos espelhos
sob o disfarce de minha face.

(Astrid Cabral, do livro Antologia Pessoal)

Acho que você, jokasta, é a minha sombra, no sentido que traz o poema.
Também tem outro que gostaria de colocar aqui. Não é necessariamente ligado a você. Mas sim seus (nossos) bichos.
Não. Acho até que este poema, O dragão domado, tem mais a ver contigo que com o outro. Leia só:

O dragão domado

Tive em menina um dragão chinês
que se hospedava no vão das moitas
habitando a noite do meu jardim.
Das madrugadas às tardes viajava
pela antípoda penumbra de outro país
e ao regressar cansado espojava-se
sonolento na grama grávida de grilos
as patas enxotando os pirilampos
que fosforeciam estrelas verdes
por entre tranças de samambaias.
Drogava-se com o ópio das papoulas
e guloso engolia finas lagartixas
mariposas tontas carapanãs vadios.
Bebia choro de chuva e suor de sereno.
Urinava poças que viravam espelho.
De orgulho ou por descuido pisava
as unhas rosa esmalte dos junquilhos
e o coração de ouro das margaridas.
Humilhava sapos camaleões lagartos
insinuando que jamais cresceriam
até seu porte de ambulante montanha.
De sua tosse brotavam chispas e chamas
e fogueiras breves rubras se acendiam
iluminando o território do meu sonho.
Assim foi até que me pus a conquistá-lo
(tarefa em que se foram anos e enganos)
fiz-lhe então cócegas cafunés carinhos
sentei-me em meu balanço, dei de comer
do meu prato, dividi meu travesseiro
cobertor e quarto. Contei-lhe meu segredo.
Ele se fez todo doçura e manso obediente
se foi minguando enquanto eu crescia.
Até que se sumiu um belo dia.

(Astrid Cabral, do livro Antologia Pessoal)




Respostas até agora:

Sabe, a gente já não agüenta mais esta história de sapos e corujas... Que você quer dizer com tudo isso? Eles nunca falam? Como saberemos que eles estão contigo?

_ Ah, então vcs querem ver os sapos e as corujas?... Bom, vou ver o que posso fazer.



























Mas isso é tudo! Menos um sapo de Jokasta!!!!




_ Como não? É meu sapo a partir de agora. Você quis um sapo. Aí está o meu sapo!





Você consegue fazer coisa melhor...





_ Agora já era. Já pari!













_Existem outros sapos aqui. Não é só você!!!
_ Então o que está esperando? Convoque-os!!!
_ É o que eu vou fazer!!!!!
Sapos, corujas, venham todos me salvar!!!!!








Eu falava do meu mundo de sapos e corujas. Do meu mundo úmido. Lá onde só existe a minha voz e mais nada...

_ Mas vc esqueceu que, mesmo no mundo que vc diz que existe e que é uma ilha, mora o cavalo amarelo... ele fala por si... não é só vc nem naquele mundo portanto...

Ele é o cavalhinho amarelo. ele não quer mais falar comigo. Não sei por onde anda...

_ Por que não o convoca?

Eu o esqueci...

_ Não, você não esqueceu... Você quer que ele ouça seu apelo sem que vc diga o seu nome. Vc o quer a seu lado, mas não quer admitir o laço que a une a ele. De quanto vc precisa dele para seguir...

Da onde vc, que eu nem sei quem é, tirou tudo isso?

_ Basta ler o que escreveu. Ver a ausência de cavalinho amarelo. ver há quanto tempo vc não escreve nada de realmente bom, para saber que vc foge e sofre e se esconde e ainda assim quer existir, sendo lida.

Pode ser tudo isso sim. mas o que me importa? se eu fosse uma pessoa de verdade eu até me importaria. mas não faz a menor diferença para mim.

_ pois é, pode ser... mas para sua autora faz!

Ela que se vire.

_ Não, você não pensa assim...

E você acha que eu penso?Hahahahaha... eu sou uma ficção, seu coisa ruim! Eu não tenho pernas, nem olhos, nem cabeça!

_ Mas ainda assim é cheia de vontades e faniquitos... cheia de pirraças... imagine se existisse... seria uma pessoa insuportável...

hahahahahahahahahha. esta é realmente boa. eu, se existisse, seria insuportável... isso não me diz absolutamente nada. por que veio até meu mundo? por que quer respostas de mim. por que me força existir...?

_ talvez porque haja algo em você que me cative. que me alimente, que me faça seguir.

sim, eu sei. todos as personagens são assim. e o que vc exige de mim eu não posso dar.

_ eu sei.

isso é insuportável para vocês, não é? não saber, não ter controle, não prever...

_ Não, não é insuportável para todos. Alguns de nós são sábios...

Parece que minha autora não.

_ Ela fala por sua boca.

Eu sei. mas o que ela precisa fazer é que eu fale coisas decentes. coisas que sejam literatura ou qualquer outra forma de arte. e não chiliques....

_ Jokasta, vc realmente é impossível.


Respostas até agora:

Olá!
Meu mundo habitado por sapos e corujas permanece o mesmo.
Eu vejo vocês por um buraco na minha caverna. A caverna onde habito.
Sim, através desta janela avisto todos. Eu prefiro manter-me aqui,
neste não-mundo criado por não sei qual circunstância. Sei que habito.
Mas eu gosto muito do mundo de vocês, do mundo de fora. Do mundo
concreto. Não, o meu mundo não é concreto. Ele é plástico. Também
é literário. Acho que meu mundo é antes de tudo lieterário. Plasticidades
vieram depois. fui tocando no que era forma depois, apesar de muito antes
ter tocado muito em plasticidades... barulhos... silêncios... a forma do oco.
seu contrário e tudo em torno.

sim, eu pretendo sair daqui num avião. para qual mundo eu não sei. talvez
eu não queira mesmo sair. talvez o que sou não parta a lugar nenhum.
é eternamente. talvez por isso eu não seja uma pessoa.

Jokasta





Só existe uma forma de ser
a que não sou.





o mundo não cabe no mar,
ou é o mar que não cabe no mundo?





Mãe acariciando o rosto do filho

Quando minha mãe enlouqueceu eu tinha apenas três anos. Fui criado por sua mãe.
Ela tinha apenas vinte e três anos. Dizem que esta é uma idade boa para se enlouquecer.
Com ela foi o que aconteceu. Lembro-me muito pouco dos momentos que tivemos juntos.
Quando ela foi de fato minha mãe. Mas ainda que sejam vagas essas lembranças,
formam um corpo sólido e extenso que não começa nem termina. Diria que essas
imagens e sentimentos caminham comigo de tal forma estável e coerente que bem
poderia dizer que se configuram na palavra chão, na minha raiz. O que me parece bastante
razoável. Às vezes penso se não fui eu quem, com o passar dos anos de minha vida, cerzi esta realidade.

O fato é que hoje minha mãe assemelha-se a um fantasma. Todas as vezes que ela
firma sobre mim seus olhos azuis, meu chão, a minha terra, o meu enraizamento
ganha contornos ainda mais nítidos. Sempre a deparar-me com eles, penso,
num primeiro momento, para logo depois ver a realidade, que ela voltou, que ela é de novo
minha mãe. Eu espero então que ela me pergunte – como se fosse eu quem tivesse
partido: onde você esteve, meu filho?


Elaine Pauvolid



nasci com as costas para o mundo
e o vento na cabeça.
não tardou encontrar a metade de mim
outra presença
e mais um sem número delas.
se revezando, não,
se substituindo.
unca a mesma pessoa que conheço
e assim mesmo
sempre a mesma.

elaine Pauvolid







fazer-me entender para que eu me aprenda













Fiz um verso cúbico
Um verso maiíusculo














existe um saber oculto na gente
todo o saber do mundo já presente
somos seres filosóficos
o mundo não é uma roda
o mundo é um som
existe um saber oculto na gente
todo saber do mundo já presente
o mundo não é uma roda
o mundo é um som
há poucas pessoa pensantes.
elaine pauvolid













não há nada que valha a pena da palavra

elaine pauvolid


o mundo é feito de pausas
















Não é ?













a palavra não deve ser útil ao poeta que precisa da palavra
totalmente descascada
de sua aparência de utensílio
maçã não de ve ser usada para dizer maçã
areia muito menos para dizer areia
pedra jamais pedra.
a palavra precisa ser desnudada
talvez quem sabe? uma lata de sopa
a palavra roupa não pode
não deve estar dizendo roupa
deve fazer ver um homem e uma mulher se abraçando.
a palavra cadáver pode ser morte
que a palavra morte não pode.
no processo de descascar a palavra
o poeta precisa entender
que a palavra poderia dizer
se fosse uma lata de sopa
se fosse uma cadeira
ou mesmo um sofá
palavra descascada pode tornar-se novamente útil e berrar.
no berro que a palavra conta
o poeta há de saber escutar o que ela desconte
precisará ver para muito além da própria palavra e suas casas
terá que se situar num lugar muito específico
onde ela não alcance, a palavra

elaine pauvolid



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