Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
Quem acha? -
Estava pensando no que fazer hoje. Hoje, por exemplo,um dia que não acaba nunca.
Meus pais estão dormindo agora. A coruja que montou morada sobre minha casa
não dorme. Eu também quase não durmo. Durante a noite gosto de passear por aqui.
Vou passeando e olhando os vaga-lumes. eles são assustadores.
Já lhes disse que esta coisa de aparecer em vários lugares me oprime. eles deveriam
ficar parados. acesos o tempo que for. mas, parados. me oprimem os vaga-lumes. eu os
vou prender todos num vidro de maionese. e não porei os furos... porei sim. furos
feitos com prego. e vou ficar olhando para eles presos. posso dormir agora.
Acordei no meio da noite assustada. Fui olhar meu pote de maionese. e estavam
mortos os vaga-lumes. mas, eu fiz os furos. não fui eu, portanto que os matei...
_ Foi sim, Jokasta, vc foi quem matou os bichos.
Quem está falando? É meu sonho?
-Não, sou eu, o cavalo amarelo!
Ora, senhor cavalo amarelo. Eu fiz furos.
-Não foram suficientes os furos que vc fez.
E o que seria suficiente, senhor cavalo amarelo ?
-Você não os ter prendido.
Mas, eu não podia dormir com tando sentido.
_Ora, ora, e uma noite sua de sono perdida vale a vida?
Eu não sabia que eram tão frágeis estes vaga vaga vaga vaga, vagos
_ Jokasta, vc fez algo do qual deveria se envergonhar e não ficar tão alheia
Eu não me culpo, senhor cavalo amarelo. Não me culpo. Minha vida já
é por demais miserável para eu lamentar a morte de insetos. Insetos
que piscam. que perturbam. eu queria dormir. e dormi.
-não pode com a liberdade dos outros...
não posso com a minha liberdade, ora. ou eu viria aqui para esta ilha
se a liberdade me conviessse? Ora, ora, sejamos razoáveis. Quem de
fato vive morta?
¨
(Este cone vermelho é um recorte que fiz de uma foto da instalação de Suzana Queiroga: Velatura.)
Eu precisava habitar minha casa, estrangeira ou não.
Jokasta 9:45 PM
Quem acha? -
viver ao silêncio quando e viver sem mim
viver ao silêncio
quando
e viver sem mim
viver
ao silêncio quando
e viver sem mim
viver ao silêncio quando
e viver sem mim
viver ao silêncio quando
viver sem mim
Elaine Pauvolid
Não vivo de retratos. Vivo de retratos. Retratos de pai e mãe, namorados,
amigos...Retratos...
Jokasta 9:26 PM
Terça-feira, Fevereiro 20, 2007
Quem acha? -
O mundo é célebre.
Quando não te acho, adoeço
E procuro-me
Pro curo me
tudo já está dito no início
no latim
procurare
dever ser a origem, sei lá
pro curare
procuro-me procuro-me
curar-me , curar-me
que ferida é esta alguém pergunta
a mesma que a sua
a da mordida
a da mordida na maçã
a maçã é a gente mesmo
claro
procurare da mordida
procurar-me da mordida
procurar-me na ferida
há de ser lá onde o olho vibra
há de ser lá na ardência mesmo do inferno
no calor gigantesco da criação
na ebulição do vulcão
onde os diabos gritam
que hei de encontrar-me...
encontrar-me frente a frente
esbarrar no outro cão
e reconhecer-se
reconhecer-se
no mais forte clarão
Jokasta 1:10 PM
Quem acha? -
Dentro do armário há um espelho
para ver eu, mesmo.
elaine pauvolid
É bem engraçado isso. De ver um espelho dentro do armário.
e lembrar disso. é para ver eu mesmo, o espelho dentro do
armário. um olho cru. um olho que vive sem mim. eu abri
a porta e o vi olhando. um olho redondo e lúcido...
É realmente carnaval.
Por incrível que pareça, é Carnaval!
A realidade está mais clara do que nunca.
Tudo na mais perfeita harmonia confusa.
Confusa e real. Muito mais real que o dia-a-dia
dos automóveis e dos carros.
do dia-a-dia da hora respeitosa...
é carnaval, mesmo.
Jokasta 12:55 PM
Domingo, Fevereiro 18, 2007
Quem acha? -
Sem Homero
às vezes me pergunto tudo
me pergunto nada
às vezes, sei de tudo
às vezes, sei de nada
neste mundo em que mudo
o estável é o incansável
desejo de alcançar
e a breve comunhão
quando descanso de lutar.
E para que este infalível soçobrar
se, na verdade, prefiro mar,
sem destino, sem porto de chegar,
e nada além que navegar?
Elaine Pauvolid
E a gente sempre volta ao início quando deseja alcançar
Jokasta 12:04 PM
Sábado, Fevereiro 17, 2007
Quem acha? -
sou o eco de alguém
ou haverá de um eco além de mim?
Sabe, a vida não é. Não é mesmo.
tenho tanta certeza disso quanto sei que sou.
e sou enquanto digo e penso, e existo.
a vida é. então. a vida existe.
mas, não é...
complicado isso? Mas acaba com todo o desespero.
por isso importante não ter filhos... não ter nunca filhos...
porque eles são. a vida, não.
falo isso porque carrego já o peso meu. o peso de sentir
coisas que não são em mim. são. coisas nas quais me misturo
e sou ao mesmo tempo tudo.
então, se carrego este peso imenso e às vezes me arrasto
em dor causada e alheia... como ter filhos ?
Sei do poeta que disse aí fora uma vez: "filhos, melhor não tê-los.
Mas, se não os temos, como sabemos ?"
deve ser muito encantandor ter filhos, sabê-los. amar e ver crescer.
deve ser a vida, acho que a vida é ter filhos. sem filhos a vida não é.
fica um eterno filosofar entre mim e o mundo... entre meus fantasmas
e meus fracassos, entre meus sucessos e meus amantes... Por que
pensou que eu, Jokasta, não os tivesse? Claro que os tenho. Não falei
do homem do navio? Meu Napoleão. Ele me lembrava Napoleão. Imagino
que ele poderia bem interpretar o Napoleão em algum filme. sempre atento,
sempre arrumando tudo para o próximo passo, estrategista e tal... E como
fui feliz na mão deste comandante... e como nos inebriávamos com rum e
mar... e como a música que vinha de dentro dele invadia meus nervos e ele
nem me precisava tocar. se tocasse era como um pianista. eu seu piano, ou seu
cravo, eu sua puta, seu violão. eu posando nua para ele apenas olhar. olhar e
dizer tudo nos olhos profundamente sensíveis. olhos de mar. ele era o mar, eu
o oceano, seja lá o que isso for.
ele partiu. no lugar não fiquei a ver navios. no lugar nem fiquei. parti também, com
a chave que ele me deu: a vida não é, mas, pode ser.
meu comandante vivo, vivente, vivendo e eu, muito mais viva do que antes.
Jokasta 3:14 PM
Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007
Quem acha? -
Sabe, Chico, eu acho que a vida não é. A vida não existe.
a gente existe e só. e este só pode tomar proporções drásticas.
no meu caso, não posso dizer a vc que sou extremamente só
no mundo de fora. no mundo de fora, no qual elaine interage
tenho amigos, não muitos, profissão, responsabilidades... mas,
eu que sou Jokasta, existo aqui. e só existo porque o mundo de
elaine não a satisfaz. não a satisfaz mesmo. então ela se transforma
em jokasta ou eu nela e construímos este cantinho aqui. Aliás,
os sapos e as corujas andam sumidos... eu estou isolada no mais
alto pico da minha ilha. meus pais não sabem onde estou. continua
minha mãe a mexer seu caldeirão e meu pai a cofiar a barba enquanto
espera a rede encher de peixes. Daqui eu vejo minha casa e percebo
que a coruja voltou. Está calma sobre meu teto. De olhos fechados. Não,
não é a coruja das torres. é uma coruja meio azulada. vcs já devem
tê-la visto por aqui. foi elaine quem a pintou para vcs. acho que já é hora
de descer deste pico mais alto de minha ilha e ir dizer olá para os sapos
e as corujas.
Não sei se acontece isso com vcs, mas, comigo acontece.
Eu preciso criar meu mundo para existir. e preciso que leiam
meu mundo para isso. não consigo existir sem testemunhas...
é estranho. eu sei que no mundo real existe algo chamado identidade.
só que sei também que isso é uma grande balela... ou seja, a identidade
funciona até certo ponto, até que alguma dê muito errado e aí... bem,
aí a pessoa ou se reconstrói ou vira caquinhos espalhados pela sala de estar...
é duro viver, já disse guimarães rosa...o problema é que sou caquinhos o tempo
todo. aqui me aglomero num ser único e indivisível. Jokasta. Sim, sou Jokasta.
e nada me atinge aqui. nada do seu mundo cheio de valores e comportamentos.
sou o que sou e posso ser e não ser o quanto puder... é este é meu mundo.
um mundo solitário, porém, um mundo de fato... o de vcs, o de fora, ora
todo mundo sabe que é só de direito, e direitos, vcs sabem... é de quem der mais...
mas, isso não era para ser assim. enquanto é, a arte cria mundos como os meus...
Jokasta 12:29 AM
Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007
Quem acha? -
Espero Homero.
O mais importante no mundo não é o amor
o mais importante no mundo é sobreviver à ausência de amor
As coisas nem sempre são como nós queremos
na verdade, quase nunca são
no entanto, quermos tanto, que quase se faz necessário que sejam
mas, isso é um terrível engano
não é necessário que sejam
na verdade necessário é que não sejam.
Jokasta 11:32 PM
Sábado, Fevereiro 10, 2007
Quem acha? -
Eu tentei sair daqui. É o cavalinho amarelo me incentivou.
Disse que eu estava preparada, que eu poderia ir e que
seria bem feliz junto dos meus iguais... Eu fui. E ele estava
certo. Engraçado que no mundo de vcs, no nosso mundo
real eu até encontrei uma coruja. era a coruja das torres
e era um filhote. Lindo, lindo, lindo.
E descobri no mundo de fora, pesquisando na internet
que a coruja vem anunciar a morte, para os superticiosos.
e isso me intrigou. eu pensei, ela veio dizer da morte...
mas, de repente a coruja se transformou numa pomba branca!
Então o anjo do rosto reluzente que estava ao meu lado
sorriu e nós sorrimos juntos... era não uma coruja, era uma
pomba branca e fajuta. eu lembrei, nada, é o espírito santo, meu
amor, o espírito santo veio nos visitar. ele consentiu.
mas, foi bem neste dia, logo depois que meu irmão partiu.
meu irmão partiu de vez...
e eu só fui saber bem depois... muito depois, de noite, quase no outro
dia. porque estava protegida por este enviado de Deus, este anjo egipcio,
que deus me mandou para passar por isso, sim do rosto reluzente. Por
que se eu não colocar deus no meio de tudo isso, como vou ligar uma coisa
na outra, eu pergunto. como viver só nos cacos? Então, para eu continuar
existindo eu digo que o homem que estava comigo no dia da coruja, era
um eviado de Deus, era um anjo. eu estava no paraíso, eu estive no paraíso.
na verdade era um barco onde eu estava e ele era o coamandante. e a coruja
da paz venho pousar na proa. eu então fiquei intrigada, se a coruja vira pomba,
então a morte vira paz. deus está na morte. o dia foi intenso. eu e meu comandante
fomos à terra, compramos suprimentos, almoçamos, fomos ao cinema e por fim
comemos uma pizza com os amigos. em seguida, recebi um telefonem sinistro.
era sinistro. meu irmão, meu irmão se matou.
era o que a coruja veio dizer. entendi, então.
Eu ainda permaneci algum tempo no mundo aí de fora. dando apoio aos meus
pais e tal. mas, tive que voltar. meu comandante precisou zarpar. o navio dele
não está mais no cais. eu volto para cá. agora com mais um motivo: tristeza.
Saí daqui para despedir-me do meu irmão... Ele se matou... Fui lá e ele se matou...
Depois, vão me dizer que Deus não existe... Claro que ele existe... Eu preciso
que Deus exista, vc não ...? Imagine tudo isso cru? Qual o ser falível que suportaria?
É claro que vc deve estar pensando, ora, mas, isso varia de pessoa para pessoa...
eu sei, eu sei... mas, aqui eu falo de uma pessoa específica, do único modo
de que posso falar. eu só posso falar daqui de onde estou... E onde estou
eu percebo que Deus existe e muito. Mas, se vc me perguntar se eu sei
onde está meu irmão eu vou dizer: sei sim, ele está numa gaveta, com
o corpo em decomposição avançadíssima, no cemitério são joão batista.
e o atestado de óbito dele foi terrível de ler. politraumatismo craniano, lesão
no baço, pulmão e outros... porque ele se jogou do décimo segundo andar...
é... então, eu não vou mentir para vcs e dizer que acho que ele está no vale
dos suicidas, nem que ele está confortável com deus... acho que ele está
naquela gaveta mesmo. eu ele passou a noite sozinho no são joão batista.
eu quis ir para lá... não me deixaram ir, era perigoso e tal... e eu não consigo
pensar no deus para meu irmão. claro que deve haver. mas, penso no deus
para mim, que o deus que me olha, colocou no meu caminho uma pessoa
para me confortar naquele momento. uma pessoa que me fez feliz durante
alguns dias, e que me fez vislumbrar um mundo sem tanto desamor... se
não fosse isso, o que seria de mim quando recebi a notícia de que
meu irmão se matou? foi mais ou menos o que aconteceu quando meu marido
morreu. sim, ele morreu. morreu do meu lado, num ataque fulminante do
coração. e eu tinha acabado de comprar uma cadelinha chamada dorothy...
ela hoje tem seis anos. ela me fez companhia e tudo. deus sempre ajuda.
sempre me ajuda. por mais que pareça que ele está com raiva, ele sempre
vem e mostra que não... que não é bem assim... deus está muito vivo dentro de mim...
e os intelectuais acham isso de uma pieguisse incrível... eu também acho...
mas, negar este sentimento divino por vergonha é muito pequeno... eu sinto
deus muito forte dentro de mim, mesmo que ele não exista.
Jokasta 3:05 PM
Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007
Quem acha? -
tudo que ocorre quando morre; tudo que vaza e guarda; tudo que torna a vida menos nobre; tudo isso retorna quando vc dorme
000000000000000
e que sonhasse eu com bons motivos;
e que me desse eu novos elementos;
e que ainda assim acordasse deseperada;
achando que o tempo do sofrer retornara
não, não era assim;
o tempo do meu sofrer nunca saiu de mim
o infinito preso no rosto; as mãos diante do tempo; a voz presa na metáfora; o amor chegando lento
Jokasta 9:31 PM
Quem acha? -
eu achei que aqui eu pudesse ser totalmente livre
e distante de tudo
mas, percebo que liberdade e distância dos outros
não me satisfazem
eu não me satisfaço
eu não me acho senão olhando para vc
que eu nem sei quem é
Jokasta 9:17 PM
Quem acha? -
a dor se faz e morre
Jokasta 9:14 PM
Quem acha? -
não há quem culpar ;não há para quem chorar; não há do que se omitir ;porque não há para quê falar;é um há solto no ar ;preso senão pelo fluxo de minha respiração
OOOOOOOOOOOOO
E ainda que se assustasse o meu caminho
ainda que tudo estivesse desfavoravelmente perdido
ainda assim, eu voltaria aqui
e olharia para a ponta contrária
e imaginaria meu antípoda
e ficaria olhando mesmo para os olhos dele
Jokasta 9:02 PM
Quem acha? -
A dor não se faz com a morte
se faz com mortes
dor se faz com cortes
dor se faz com sorte
a dor se faz e morre
Jokasta 8:57 PM