Quarta-feira, Novembro 22, 2006

 
Eu já tinha desistido de ir atrás da coruja, foi quando
eu vi passar lentamente por mim o cavalinho amarelo.
Achei que aquilo fosse um sinal e corri o mais que pude
até ele e o alcancei. Abracei tanto o seu pelo macio e reluzente,
beijei-o e disse-lhe que o amava tanto...
Ele já devia saber disso porque abaixava a cabeça docemente
consentindo meus carinhos. Então me convidou para que eu subisse
em seu dorso. O que fiz com enorme prazer. E voamos tanto,
por tantos mares, por tantas sombras, por tanta luz... E ainda
estamos a voar...

Decidi pedir ajuda a ele, sobre a coruja. Porque a culpa de tê-la expulso de
meu teto, de meu teto, de meu teto, me consumia inteiramente. Apesar de
eu saber muito bem que tudo aquilo não passava de cinismo. Cinismo da
única parte envolvida: eu mesma! Sabia muito bem que a coruja não clamava
por mim, apenas me via. E me parecia ver-me horrível. Na verdade, eu
queria dizer a ela que eu não era horrível, ou que ao menos não gostaria de
sê-lo. Eu queria mostra à coruja o meu dragão. Sim, o dragão. Ainda falarei mais dele aqui. A única
coisa que posso antecipar é que a cor do meu
dragão é vermelha! Ele expele flores e fogo, a depender do dia e da hora. Mas,
expele mais flores, e o fogo que emana, emana sobre si, por isso vive em brasa
o meu dragão. Por isso a cor do meu dragão é vermelha... E o dragão é minha verdadeira
identidade. O corpo que vc vê e afaga, não sou eu. Isso é uma redoma, uma máscara,
uma roupa plástica. Eu sou o dragão. E ele é meu.
A cor do meu dragão é vermelha. Por enquanto é o que posso lhe dizer.
Vc que lê e tenta desvendar o melhor que pode. E ver que tudo que se desvenda
já é sempre um outro disfarce e mais outro. Que a verdade nunca está onde dizemos
a última palavra. A verdade é verdade e se esconde. Ela oscila. Ela vaza, ela vinga, ela
trai, ela mata, ela incendeia, ela acalma, ela diz amém, ela diz amem-se, ela diz além,
ela diz que diz e nunca diz o que gostaríamos de ouvir a não ser que queiramos mentir.
E o que a mentira senão a inveja da verdade...

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