Quinta-feira, Outubro 26, 2006
Quem acha? -
Busco o mundo todo atrás de um fio
Aliás, que cor tem ele ?
Eu tento encontrar a margem e não consigo... Eu tento, tento, tento...
E vai e luta e tomba
de tanto morrer
crescer se cansa
de tanto morrer crescer se cansa
de tanto morrer crescer se cansa
pena que não pode me ver... pena que nem eu posso ver vc...
mas, onde estou é muito bom... Eu fiquei muito amiga do cavalinho amarelo...
nossa como ficamos amigos... vc não pode ver, se o fizesse o faria llorando...
rrrsssrssrsssrs
se o fizesse...
se...
se...
se...
e vai e luta e tomba
de tanto morrer, crescer se cansa...
eu menti...
posso sim ver vc daqui...
tem um espelho d´água bem aqui na minha frente...
olá... pode ver daí meu cavalinho azul?
sim, eu sei, o meu é amarelo...
mas, um cavalinho azul é o mesmo que um cavalinho amarelo...
viu só como eu te vejo bem...
rs
rs
rs
O engraçado é que a terra sangra
É que tenho medo de ficar a sós comigo mesma...
Por isso... Por isso à busca pela coruja... Sempre a mesma
busca... Porque me ignoro... Me ignoro e ignoro o não-mundo.
Um mundo ácido e concreto, de sons e superfícies...
Para onde foi aquela coruja?
O mundo dos cheiros e das dores... Dos mortos de fome...
Sim, estou numa ilha, mas, sei o que há no mundo... Sei não
tudo, mas, um pouco. Aliás, a ilha é talvez a epiderme do mundo...
E vcs são seus pêlos. Eu vou por baixo, mas não estou só na raiz,
percorro o caule, vou até a mais alta superfície, diria que vou além
e retorno, estou em tudo e em lugar nenhum, eu olho.
Vocês são pelos quais não durmo
Então me coloquei no encalço dela. não que achasse
que havia feito errado, ou que ela realmente precisasse
de mim, mas, porque eu precisava sair atrás dela, pura
e simplesmente... como num estado de graça ou de
desgraça fui levada por mim mesma e só por mim
a uma caçada.
Sabia onde podia encontrá-la e sabia também que
ela também queria a distância... Mas, fui. Porque precisava
ir, precisava de um destino pré-definido. Eu precisava de
um caminho. Precisava pousar meus pés...
E pensar que o mundo poderia ser todo rubro...
É claro que é porque quereria que a coruja voltasse... claro...
me falta o piado dela... longe de me dar medo, o sinistro me encantava...
claro que me falta a coruja ... claro... e mandá-la embora também não
foi um erro... claro... claro que claro...
E ainda nem falei dos sapos... sim, os sapos. Damo-nos muito bem.
Sinto-me muito tranqüila ao lado deles. Quanto mais escuros e manchados
e brilhantes, mais protetores de minha alma. Mas, para que ter uma alma
protegida nesta ilha? Vc que deve estar aí, deve estar se perguntando...
Existem muitos perigos... Inúmeros... Vc é que não pode ver, se o fizessse
o faria llorando... Sim, o faria llorando, orando... O faria orando... O faria
orando... Sim, sim... Se me vem perguntar de Deus eu lhe digo, ora, ora,
eu só existo a partir da realidade dele. Ainda que ele não exista. Tudo
parece girar ao redor não de mim, mas, dele... Isso me apraz, tira
o peso do mundo de minhas costas... Os sapos são anjos e carregam
o peso do mundo...
Não há dor maior que a noite
É durante a noite que penso mais nela, na coruja. Porque eu disse
e repito que não vou procurá-la. Sim, o passado eu
no presente mudo tudo. Não fui atrás dela. Permaneço não indo.
Mas, é durante a noite que penso mais nela, na coruja. Principalmente
quando chove... Imagino, coitadinha, molhada e sem comer e
sem poder dar de comer aos seu filhinhos... Ai, como fui maldosa...
Ai, como estou maldosa...Como é bom ser ruim às vezes... Não sei
se me entende... O certo é que não estou a ir, ainda, e por enquanto.
Por onde começo sem terminar... Sem terminar... por onde só ameaço
começar e pareço tocar no que seria o tempo. E que bicho ele seria?
Talvez um gato... Engraçado, não tenho visto gatos por aqui.
Voltando à coruja, posso, a qualquer momento
sair sob a chuva, durante a noite,
a gritar por ela... Sim, posso... Se não vou, não sei qual explicação
daria. Talvez a mesma para não ir. Mas, que não busco a coruja, isso
é simples. Busco-me. Busco-me em relação. Busco-me na ação.
Busco-me, brusco-me, busco-me, busco-me, busco-me na ação...
Porque se realmente me preocupassem a coruja e seus filhotes
eu já não estaria aqui... Preocupa-me sim, como passar a noite.
Como doer a noite. Por isso viro para o lado, e caio num sono pesado.
Não há dor melhor que a noite
Há coisas que só percebemos depois da morte
Jokasta 9:35 AM
Domingo, Outubro 08, 2006
Quem acha? -
este é meu cão... na verdade, é fêmea e seu nome é Dorothy.
Essa cadelinha é azulada às vezes, amarelada muitas, e es-
verdeada, ela cada dia está de uma cor e me lembra sempre
que o mundo é bobagem...
Jokasta 1:01 PM
Quem acha? -
Sobre a parte superior da minha caverna, o meu teto, ficou
a coruja azulada durante um tempo. Temo por ela...Mas,
quem temerá por mim ? Mas, ela vai voltar. Vc sabe
que eu vivo em companhia dela. dela, do dragão, do
cão, dos sapos e muitas outras criaturas... por enquanto
ela me falta, e falta tanto como se eterno fosse tudo
que se perde, sendo a perda a perda de tudo e não
apenas de um bicho que nem mesmo é peludo...
Jokasta 12:53 PM
Quem acha? -
-Mãe, quando a morte chegar, que teremos para jantar?
-Boa pergunta, filha, boa pergunta... Continue me perguntando isso até eu conseguir
saber ... boa pergunta... muita boa pergunta... pergunte, pergunte, pergunte...
Aqui sou eu em transe por ter sido envolta pelo solidão.
Ao lado, o cavalo amarelo, que tem sido o meu herói desde
que soube que existe. Nunca o vi... mas, quando o solidão
me toma eu alucino e o vejo, ele vem me salvar...
sim, este é o retrato, você sempre esteve lá...
eu disse que o sinistro não me assusta, o direito é
que me constrange...
Jokasta 12:50 PM
Sábado, Outubro 07, 2006
Quem acha? -
eu não deixo de ser o que sou
para voltar a ser o que não fui
*****
fecho os olhos e pulo
solta no ar
mergulho
Quer saber? Aquilo de ir atrás da coruja foi um erro horrível. É melhor não ter ido.
Sim, eu não fui atrás da coruja. Disse ao meu pai: se no sul não tem comida,
por que no norte teria ? Ao que ele sabiamente respondeu: ora, temos sempre
que tentar... Então a coruja tentou achar comida aqui... e piava o pio sinistro,
e não só isso, não nos fazia a boa companhia. Por aqui há muita solidão.
Solidão é um bicho que come tudo, e dói ser comido por ele. Ele expreme
nossa cabeça, nos faz ter vertigens e cair desmaiado, antes é claro
de nos debatermos muito para nos livrar de suas garras. Há muito tempo
atrás meu pai foi pego por um solidão. ele se contorcia pelo chão e berrava
tapando seus próprios ouvidos. o solidão é macho e invisível. outro dia
foi minha mãe que não reagiu. enrolou-se num canto da caverna e esperou
que solidão extraísse tudo que quisesse. quando o bicho a largou
ela não tever forças para levantar. ficou deitada tomando comida na
boca por duas semanas. eu sou pega pelo bicho muitas vezes. eu fico
desesperada, corro feito uma doida e é geralmente nesses momentos
que tenho vontade de procurar um bicho perdido como a coruja ou um
nunca encontrado, como o cavalo amarelo gema...
*********
sou feita de pausas
são nas pausas que me dou
Jokasta 9:17 PM
Quarta-feira, Outubro 04, 2006
Quem acha? -
Como dizia, não gosto das coisas muito direitas... Tudo que é muito certinho tem
um dedo de engodo, de descabido, de morte... Realmente não sei se me entende...
De qualquer forma, a coruja naquele dia desapareceu e não voltou nos outros dois
meses que se seguiram. Uma noite, estávamos o três a tomar uma fresca, porque
a noite estava muito quente, e eu riscava o chão com um graveto. Dei por mim
realizando o contorno de uma coruja, o que fez logo meu pai perceber e lembrar
do bicho antes expulso. Comentou que poucas eram as corujas que vinham pousar
no lado norte e que certamente ela havia aparecido à procura de algo... Aquilo me
fez pensar nas penas do bichinho e perguntar a meu pai, o que seria o objetivo da
procura... ao que ele respondeu: comida, comida, sempre será comida...
Então, fiquei com pena da coruja... Uma pena leve... No dia seguinte me pus
a caminho do sul para encontrar a coruja e oferecer o teto da minha caverna
para ela piar...
*******
Eu me pergunto muitas vezes que fim é o começo, porque
o fim é o começo. Isso está claro para mim, o fim é o começo...
Mas é só uma frase, uma assertiva, algo que se diz. O fim
é o começo por quê? Talvez pelo nosso desejo de sermos eternos...
sim... mas, eu sempre pensei: antes de eu me dar como gente, antes
de eu olhar e ver, eu já existia... Existia como começo, existia antes de
mim, porque eu sempre me lembrei sendo... nunca me surprrendi em
ser... nunca pensei: meu deus o que é isso que estou... eu sempre fui,
bem antes, então... Mas, são só palavras... E o que somos além ? O
que somos antes do princípio... Sim, no princípio era o fim...
Jokasta 9:53 PM
Domingo, Outubro 01, 2006
Quem acha? -

Como vim parar aqui e por que tenho uma coruja e um dragão?Sinceramente
eu não sei... Vai ver que é pura imaginação ou talvez a inexistência tenha disso,
de não se saber.
Eu olho o mar a minha volta e fico me perguntando quando chegará o amanhã.
porque deve ser um dia lindo amanhã, amanhã e depois porque por enquanto eu
só espero.
Meu dragão ontem me contou que viu um cavalo amarelo andando solto pelos
lados do sul... Eu não tenho vontade de descobrir este cavalo nem nenhum
outro bicho. Mas, seria bem interessante ver o cavalo amarelo... Ele disse
que é amarelo gema, não é marrom... deve ser um belo animal...Vou
esperar ele vir para o norte. e aí se ele passar por mim, não vou me furtar
a olhar, mas, não vou atrás... eu estou cansada de correr atrás de todos
os bichos que eu desejo. que venham a mim... se quiserem...
Por exemplo, a coruja. A coruja que é azul e verde eu vi passar certa vez
por cima da cabeça de meu pai. foi pousar num galho muito alto, por cima
mesmo de nossa caverna. Ah, sim moro numa caverninha... E aí eu fiquei
olhando para ela. Ela não piava a não ser à noite. Minha mãe dizia:" Ih, o
pio típico da coruja azulada!"
E meu pai respondia:
"-é..."
Um dia cansada deste diálogo sem sentido entre os dois, e o que é que
tem sentido ?, fui lá em cima da caverna olhei bem nos olhos dela e disse:
- vem cá, senhora coruja azul, ou a senhora se apresenta ou pode ir embora!
Ela abriu suas asas enormes e ficou gigante...
- se a senhora pensa que sou um bichinho tolo que vai ficar com medo deste
tamanho todo que sei que não tem, está muito enganada. Eu repito, ou
diz nome e razão ou se manda!
A coruja foi embora. Achei que o assunto havia se encerrado e ficamos livres
do piado sinistro dela à noite. Se ao menos ela viesse ficar conosco, trocasse
dois dedos de prosa e voltasse ao seu posto, bem poderia morar em cima da
caverna, e piar, não haveria problemas. O sinistro não me assusta. Tenho
medo é das coisas muito direitas... Não sei se me entende...
Jokasta 6:03 PM