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O medo de nada
Quem consegue enfrentar o nada e o silêncio
sendo silêncio nem um pouco o nada
o nada o silêncio mais um pouco som?
Quem consegue enfrentar a inércia com o sopro do mundo
gritando vida em tudo?
Procuro em mim quem me faça
eu, a covarde
que do nada evito o toque.
O silêncio é um grito em mim.
Permaneço inerte, temendo abismos
que me parecem a melhor metáfora do nada.
Os monges parecem saber lidar com o nada e com silêncios.
Eu desvio meu olhar
procuro a mão do monge enquanto durar.
Elaine Pauvolid
Jokasta 10:42 PM
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Jokasta, vou colocar um poema aqui de Astrid Cabral, A sombra, que me fez lembrar de você.
A sombra
De manhã levanta-se com minha preguiça,
deita-se à noite com o meu cansaço.
Dói na minha dor, freme no meu orgasmo.
Faz do meu corpo casa mal-assombrada.
De qualquer sol ou luz liberta,
é capaz de vingar no regaço da treva
e zombar de quem quiser guerreá-la.
Cega e surda me ronda e me fareja
sem a meus pés deitar-se em alfombra
nem feito cão lamber-me os rastros.
É uma sombra que sempre me aprisiona
não em transporte e frouxa redoma,
antes em incômoda estreita roupa
que rente e rasante me reveste
tronco, membros e órgãos sob a pele.
É uma sombra que sob a superfície jaz
invisível aos lados, à frente, atrás.
É uma sombra contida no meu espaço
escondida do aço dos espelhos
sob o disfarce de minha face.
(Astrid Cabral, do livro Antologia Pessoal)
Acho que você, jokasta, é a minha sombra, no sentido que traz o poema.
Também tem outro que gostaria de colocar aqui. Não é necessariamente ligado a você. Mas sim seus (nossos) bichos.
Não. Acho até que este poema, O dragão domado, tem mais a ver contigo que com o outro. Leia só:
O dragão domado
Tive em menina um dragão chinês
que se hospedava no vão das moitas
habitando a noite do meu jardim.
Das madrugadas às tardes viajava
pela antípoda penumbra de outro país
e ao regressar cansado espojava-se
sonolento na grama grávida de grilos
as patas enxotando os pirilampos
que fosforeciam estrelas verdes
por entre tranças de samambaias.
Drogava-se com o ópio das papoulas
e guloso engolia finas lagartixas
mariposas tontas carapanãs vadios.
Bebia choro de chuva e suor de sereno.
Urinava poças que viravam espelho.
De orgulho ou por descuido pisava
as unhas rosa esmalte dos junquilhos
e o coração de ouro das margaridas.
Humilhava sapos camaleões lagartos
insinuando que jamais cresceriam
até seu porte de ambulante montanha.
De sua tosse brotavam chispas e chamas
e fogueiras breves rubras se acendiam
iluminando o território do meu sonho.
Assim foi até que me pus a conquistá-lo
(tarefa em que se foram anos e enganos)
fiz-lhe então cócegas cafunés carinhos
sentei-me em meu balanço, dei de comer
do meu prato, dividi meu travesseiro
cobertor e quarto. Contei-lhe meu segredo.
Ele se fez todo doçura e manso obediente
se foi minguando enquanto eu crescia.
Até que se sumiu um belo dia.
(Astrid Cabral, do livro Antologia Pessoal)
Jokasta 1:17 PM
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Olá!
Meu mundo habitado por sapos e corujas permanece o mesmo.
Eu vejo vocês por um buraco na minha caverna. A caverna onde habito.
Sim, através desta janela avisto todos. Eu prefiro manter-me aqui,
neste não-mundo criado por não sei qual circunstância. Sei que habito.
Mas eu gosto muito do mundo de vocês, do mundo de fora. Do mundo
concreto. Não, o meu mundo não é concreto. Ele é plástico. Também
é literário. Acho que meu mundo é antes de tudo lieterário. Plasticidades
vieram depois. fui tocando no que era forma depois, apesar de muito antes
ter tocado muito em plasticidades... barulhos... silêncios... a forma do oco.
seu contrário e tudo em torno.
sim, eu pretendo sair daqui num avião. para qual mundo eu não sei. talvez
eu não queira mesmo sair. talvez o que sou não parta a lugar nenhum.
é eternamente. talvez por isso eu não seja uma pessoa.
Jokasta
Só existe uma forma de ser
a que não sou.
o mundo não cabe no mar,
ou é o mar que não cabe no mundo?
Mãe acariciando o rosto do filho
Quando minha mãe enlouqueceu eu tinha apenas três anos. Fui criado por sua mãe.
Ela tinha apenas vinte e três anos. Dizem que esta é uma idade boa para se enlouquecer.
Com ela foi o que aconteceu. Lembro-me muito pouco dos momentos que tivemos juntos.
Quando ela foi de fato minha mãe. Mas ainda que sejam vagas essas lembranças,
formam um corpo sólido e extenso que não começa nem termina. Diria que essas
imagens e sentimentos caminham comigo de tal forma estável e coerente que bem
poderia dizer que se configuram na palavra chão, na minha raiz. O que me parece bastante
razoável. Às vezes penso se não fui eu quem, com o passar dos anos de minha vida, cerzi esta realidade.
O fato é que hoje minha mãe assemelha-se a um fantasma. Todas as vezes que ela
firma sobre mim seus olhos azuis, meu chão, a minha terra, o meu enraizamento
ganha contornos ainda mais nítidos. Sempre a deparar-me com eles, penso,
num primeiro momento, para logo depois ver a realidade, que ela voltou, que ela é de novo
minha mãe. Eu espero então que ela me pergunte – como se fosse eu quem tivesse
partido: onde você esteve, meu filho?
Elaine Pauvolid
nasci com as costas para o mundo
e o vento na cabeça.
não tardou encontrar a metade de mim
outra presença
e mais um sem número delas.
se revezando, não,
se substituindo.
unca a mesma pessoa que conheço
e assim mesmo
sempre a mesma.
elaine Pauvolid
fazer-me entender para que eu me aprenda
Fiz um verso cúbico
Um verso maiíusculo
existe um saber oculto na gente
todo o saber do mundo já presente
somos seres filosóficos
o mundo não é uma roda
o mundo é um som
existe um saber oculto na gente
todo saber do mundo já presente
o mundo não é uma roda
o mundo é um som
há poucas pessoa pensantes.
elaine pauvolid
não há nada que valha a pena da palavra
elaine pauvolid
o mundo é feito de pausas
Não é ?
a palavra não deve ser útil ao poeta que precisa da palavra
totalmente descascada
de sua aparência de utensílio
maçã não de ve ser usada para dizer maçã
areia muito menos para dizer areia
pedra jamais pedra.
a palavra precisa ser desnudada
talvez quem sabe? uma lata de sopa
a palavra roupa não pode
não deve estar dizendo roupa
deve fazer ver um homem e uma mulher se abraçando.
a palavra cadáver pode ser morte
que a palavra morte não pode.
no processo de descascar a palavra
o poeta precisa entender
que a palavra poderia dizer
se fosse uma lata de sopa
se fosse uma cadeira
ou mesmo um sofá
palavra descascada pode tornar-se novamente útil e berrar.
no berro que a palavra conta
o poeta há de saber escutar o que ela desconte
precisará ver para muito além da própria palavra e suas casas
terá que se situar num lugar muito específico
onde ela não alcance, a palavra
elaine pauvolid
Jokasta 11:32 AM
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Nós
mais uma vez
agarre a ponta de sua linha
tente forjar seu nó
mais uma vez
não tente atá-lo
mais uma vez
que os seres inanimados não escolhem.
Aguardam ou guardam
silêncios e ruídos que também são nossos.
Dói tanto ser luz
dói ser sombra
dói tanto ser azul
dói tanto ser brasileira
dói ser feliz
dói ser rejeitada
dói ser amada
dói agulha injetada
dói ser bastarda
dói tanto ser filha
dói alguém doendo
dói que dor náo é dor.
Aos olhos cegos da coruja
os olhos cegos da coruja
carregam-me em sua sombra
nunca tive uma ave coruja
talvez por isso me siga.
tive cães, gatos, outros pássaros e flores
nunca a coruja cega.
E ainda assim dói em mim a falta de luz
este cuoco sem relógio
Meu galo sem manhã.
A coruja, meu lado cego
de onde penso
a total falta de espelho
me olha.
Isso não é uma voz
é o silêncio fantasiado
falando comigo e contigo.
Quer ?
um caminho é silêncio
gente não vive só de posturas
nem o silêncio é só volátil
o tempo também, não
o vento não tem nada a ver com isso
e sussurra e, portanto,
conhece bem o silêncio.
o medo, muitas vezes, também
desaparece nesses casos.
Não é?
Après Merleau Ponty: O traço do avesso/ depois o pensamento/ - não direi eu vejo,/ nem eu penso.
A dor
o olho
a morte
Odor
A dor
o olho
a morte
Odor
Poema: quando alguém põe uma resposta a acontecer e não diz não
Não tinha a menor noção do medo, nem da angústia. Ainda no aleatório da vida
não se tinha posto de frente a pessoas, não más, mas abrutalhadas pela vida e de
comportamento dúbio, onde ele só podia enxergar por meio de seus próprios conceitos.
Talvez fossem os dele também tão dúbios, tão forjados estranhamente, ou talvez
começasse a aparecer seus próprios dentes.
Almas e corpos
o corpo não cabe na alma
nem a alma, no corpo.
Estão tão magros
da alma e do corpo
a alma e o corpo...
se as costas fraquejam,
os pés latejam
se a fronte, rija
se a roupa não combina
a alma assiste de cima
ou ao lado
nunca abaixo.
A alma é tão rara
nós, ralos nestes corpos
até estarmos mortos
e nossas almas virarem corpos,
quando descobri não só poesia minha vida
expulsa não fui da lira
a ferida vi espargir mil versos
Jokasta 8:38 PM
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Minha autora fará uma exposição. são seus poemas espalhados pelo chão...
Ela diz que a vida dela são palavras e a palavra quadros...
Eu iria, é claro, se eu fosse gente. Sendo personagem, só me resta ficar aqui, saboreando por fora
e dizendo que minha autora vai lançar um livro. Se ela deixa de escrever eu deixo de existir. Então,
o livro que ela vai lançar é também uma prova de que eu estou viva...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Que tempo é este que a gente fala, se o meu tempo não existiu enquanto minha autora não me escreveu?
E ainda que este tempo não tenha existido, um tempo se inaugura no momento em que minha autora me escreve.
E o tempo passa a existir do presente, fundando um passado que nunca foi presente.
Que tempo é este?
Jokasta 9:18 PM
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Jokasta 9:58 PM
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E numa frenética Eloqüência ela achou melhor parar.
Se assim se vê por três lacunas justapostas
ninguém melhor que ninguém poderia ter visto o fato
de que o modo como ela usava a linguagem
era a forma conforme ela cerzia meias.
Jokasta 10:14 PM
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Num ato
Não sei que iconoclastas viagens se fizeram ao epicentro e nem se levaram suas mônadas de hamburgers rechedas.
apenas aprecio estar sendo uma outra coisa em cada lugar pisado e nunca sendo o devir quimera
abastencendo uma existência retrógada que nenhuma filosofia poderia me explicar melhor
sendo a mesma coisa o que acontece a mim e ao outro, ou a penas de um delírio maquineísta trazendo a baila momentos de hipnose bárbara
e contudo isso ainda travar diálogo com pessoas que nem conheço
e mais ainda só assim vivendo.
A partir de outro ponto
O que existe nem tampouco é
o sonho é melhor sendo
a nuvem que nunca chega é o momento de pensar
a nuvem que passa é o ato de alcançar
e esbarra numa bigorna
o sonho acaba
sangue pelo chão da sala
amanhã recomeça
e
Entrando na questão mais uma vez
Não importa que o noticiário diga que é você o culpado
nem que a melhor imagem não lhe caiba
e ainda assim aquele móvel que vc viu no antiquário pode ser melhor comprado em uma loja de designers
mas o dinheiro que é caro não caberá na sua maletinha cibernética
nem muito menos aquele almoço que vc adiou adiará mais uma vez sua fome de ler
não cabem na sua cabeça todos os livros do mundo
muito menos em sua biblioteca de aço
se eu fosse vc eu compraria aquele móvel mesmo
ainda que não seja totalmente o que vc deseja
ao menos vc poderá guardar as suas coisas enquanto espera alcançar aquilo que pretende
e talvez o que pretenda nunca será eternamente seu
talvez seja até melhor desistir de alcançar o inacalcansável
ainda assim se eu fosse vc eu compraria aquele outro móvel bem mais barato
nele cabem metade de suas coisas e mais algum salário
tudo que te mostram é vão
não se desespere
não, não quebre os móveis não
não , não, não faça da sua vida uma diversão para outros iguais a vc
largue este bastão
se afaste da loja de departamentos
não agrida a funcionária
ela não tem culpa se vc não tem o suficiente para comprar o móvel que vc viu no antiquário e aquele outro na loja de designers
Jokasta 10:01 PM
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as árvores não são mudas (elaine pauvolid)
Jokasta 2:35 PM
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o que se percebe do tumulto é o chão
Jokasta 2:28 PM
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O furacão
A morte é um cavalo seco
Ivan Junqueira
a solidão é uma ave esquálida
suas penas são parcas
tem um bico afiado
capaz de sangrar duras carnes
não gosta de pessoas fortes
nem gosta de pessoas fracas
parece que carrega um mistério e um brilho
não ousaram cortar-lhe o pescoço
também nunca ousaram amá-la de fato
é um bicho que carrega mágoas
costuma andar pelos meios algadiços
e apesar do que todos dizem por aí
a solidão possui um coração canino .
elaine pauvolid
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o silêncio passa pelo resto do mundo e dorme
e volta
e acorda
o silêncio é uma boca enorme
com seus dentes para fora
o silêncio é o que devora e não devora
devolve, envolve, não envolve; remove.
o silêncio não se move.
elaine pauvolid
Jokasta 9:07 PM
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Espaço
A metade amor não cabe na metade
A metade não cabe na metade
A metade não se insere no espaço
A metade espaço é o espaço
que cabe a vontade.
elaine pauvolid
Jokasta 2:50 PM
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Cavalinho amarelo, onde está você?
Jokasta 11:25 PM
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-Eu sempre estive aqui
- É mentira! Mentira... Estive a te procurar por todo lado, vc me deixou aqui sozinha. Não respondia aos meus chamados. Você não estava.
- Estava, sim. Eu dizia a você: Jokasta, Jokasta, Jokasta, olhe para o lado, eu estou aqui, eu estou aqui!!! E você virava a cabeça para o outro, com se ouvisse meu chamado de lá. E corria para longe, parecendo querer me alcançar.
- E por que vc não correu atrás de mim para que eu o visse?
_ Porque isso já seria demais para uma cavalo.
_ Vc não é um cavalo. Você é minha consciência, minha memória, sem você eu não existo.
_ Por isso não me via, nem me ouvia, vc estava desisitindo...
_ Eu estava sumindo...
- É, estava sim, eu eu estava indo contigo, sempre a seu lado, gritando seu nome: Jokasta, Jokasta, Jokasta!!!
- E por que voltamos?
- Quem vai saber?
Jokasta 11:20 PM
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a solidão é uma ave esquálida - suas penas são parcas - tem um bico afiado- capaz de sangrar duras carnes- não gosta de pessoas fortes - nem gosta de pessoas fracas- parece que carrega um mistério e um brilho- não ousaram cortar-lhe o pescoço - também nunca ousaram amá-la de fato - é um bicho que carrega mágoas - costuma andar pelos meios algadiços - e apesar do que todos dizem por aí- a solidão possui um coração canino . (elaine pauvolid in www.jokasta.org)
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Todas as formas de identidade são dúvidas.
Jokasta 10:11 PM